Quando se põe a
pergunta "você conhece a Bíblia?", muitos automaticamente
pensam que se pergunta se eles conhecem as histórias ali narradas ou se são
capazes de citar textos de memória, como se
faz nos "concursos
bíblicos". Mas conhecer a Bíblia não é questão de memorização de textos,
nomes ou incidentes narrados, mas de compreensão. Quando a mãe diz
conhecer seu filho, não quer dizer que tem arquivada em sua memória uma série
de dados biográficos sobre ele, mas antes que sabe como ele pensa, como e por
que reage a estas e àquelas situações, quer dizer, que é capaz de entrar no
mundo interior de seu filho, de vibrar com ele. De maneira igual, como a Bíblia
é um conjunto de testemunhos vividos, não de dados informativos, como
veremos, conhecer a Bíblia é entrar em seu mundo, é saber como e por que
se relatou aquilo que se escreveu, é vibrar com seus autores.
Se você crê
conhecer a Bíblia, trate de responder às seguintes perguntas com relação ao
famoso relato chamado "sacrifício de Isaac", em Gênesis 22. Trata-se
de uma história, de uma lenda ou de um mito? Por que se relatou? Quem tomou nota
do diálogo entre Abraão e Isaac enquanto caminhavam a sós até o lugar do
sacrifício? Deus falou com voz humana? É compreensível a mansidão do jovem
Isaac ao deixar-se amarrar para ser sacrificado? Como entender que no v. 12 o
anjo fale como se fosse o próprio Deus? Como se lembraram os narradores dos
detalhes depois de mais de oito séculos transcorridos entre o tempo de Abraão
(séc. XVIII a.C.) e o tempo em que se escreveram pela primeira vez (séc. X)?
Saber muitos
dados da Bíblia não
significa automaticamente conhecê-la, da mesma maneira que saber ler não
significa compreender o que se lê. Muitos crêem que basta saber ler para
compreender a Bíblia, como se fosse um jornal de ontem. Nem sequer lhes ocorre
que os escritos da Bíblia datam de pelo menos mil e novecentos anos e que foram
redigidos, a maioria, no Oriente Médio, com tudo o que isso implica. Só se
começará a conhecer e compreender a Bíblia quando se estiver familiarizado com
sua origem e com sua formação, quando se souber por que foram escritos os
diferentes livros, e algo do mundo daqueles para os quais foram escritos
diretamente, sua cultura e circunstâncias. Para conhecer e compreender a carta
de São Paulo aos Gálatas, por
exemplo, temos de familiarizar-nos com as circunstâncias sob as quais ele a
escreveu, o que motivou o apóstolo (emissor) a fazê-lo, assim como as
realidades culturais, políticas, religiosas e outras nas quais viviam os
gálatas (receptores).
Para conhecer e
compreender a Bíblia, deve-se possuir um mínimo de informação sobre ela, informação
que ela mesma nos proporciona. Para ilustrar tudo o que se vem dizendo, algumas
perguntas servirão de guia: Você sabia que a Bíblia contém muitos escritos e
que estes são muito diferentes uns dos outros? Sabia que nem todos são
história? Você sabia que esses escritos foram compostos por pessoas concretas,
que viviam em tempos distintos e sob circunstâncias diferentes? Que sua
composição vai do séc. X a.C. ao séc. I d.C., ou seja, que cobre um milênio?
Você tomou conhecimento de que a mentalidade (sua ideia do mundo e do homem) de
seus compositores é típica do Oriente Médio, muito diferente da nossa? Você
sabia que muitos escritos foram compostos muitas décadas, alguns até séculos,
depois que sucederam os acontecimentos narrados? E já pensou no que acontece
quando algo é transmitido oralmente durante muito tempo de uma geração a outra?
Você sabia que os escritos que constituem a Bíblia não foram escritos pensando
em nós, mas para destinatários bem concretos, quer dizer, que não nos tinham em
mente? Você poderia explicar por que tantas traduções da Bíblia? E poderia
explicar por que em certos textos Deus aparece como vingativo e em outros como
compassivo? Aliás, por que muda de opinião? Deus é temperamental? Por que temos
duas histórias diferentes da monarquia de Israel (Samuel-Reis e Crônicas) e
quatro Evangelhos diferentes, e não um só? Em poucas palavras, você sabe como
se gerou e se formou a Bíblia? É o que queremos ver com atenção nas páginas
seguintes.
Por onde
começar?
Quando olhamos
atentamente a Bíblia, vemos que ela contém muitos escritos: Gênesis ... Êxodo
... Reis ... Isaías ... Amós ... Salmos ... Evangelhos ... Isto significa que
são escritos independentes uns dos outros, como um livro é independente
do outro. No início, os escritos não estavam todos juntos, como os achamos hoje
em nossa Bíblia. Por certo, o mais óbvio de tudo, a primeira coisa que
constatamos ao ler um escrito da Bíblia é o fato de estar escrito em um idioma,
com uma gramática - que lemos em uma tradução -, com maneiras de pensar e de
expressar-se frequentemente distintas das nossas e que falam de situações,
histórica e culturalmente, diferentes das que vivemos. Quer dizer, o mais
evidente é sua dimensão humana.
O menos evidente a
respeito da Bíblia é que ela é palavra de Deus ou que provém de inspiração
divina, visto que afirmar isso pressupõe assumir uma atitude de fé: não é um
dado objetivo. Prova disso é que nem todos reconhecem a Bíblia como palavra de
Deus, mas a reconhecem como literatura. Afirmar que a Bíblia é produto de
inspiração de Deus é atribuir uma qualidade que não é nem objetiva nem evidente
em si mesma e que somente se admite com a fé, como pessoa que crê.

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