A palavra
"Bíblia" é grega; significa "livros, escritos, documentos (no plural) - o singular é "biblos" ou "biblion".
Este substantivo passou tal
qual para o latim e daí ao português, como se
se
referisse a um só livro, no singular.
Vemos que o termo mesmo originalmente designava um conjunto de escritos, não
apenas um. E isso é correto, pois a Bíblia é um conjunto ou coleção de escritos
que para nós estão convenientemente reunidos em uma só encadernação, e por isso
costumamos pensar que se trata de um só livro. Mas não foi assim no início.
Na Antiguidade,
os diferentes escritos que agora constituem nossa Bíblia eram rolos ou papiros
independentes uns dos outros. Quando se lia um "livro", tirava-se
somente esse, e não toda a "biblioteca". Quando Jesus foi a Nazaré e
entrou na sinagoga, diz Lucas, "lhe entregaram o livro (biblion) do
profeta Isaías. Ele o abriu e encontrou a passagem em
que estava escrito ... " (4,17). Estas simples observações nos esclarecem
algumas realidades: os diferentes escritos foram compostos em diferentes tempos
por diferentes pessoas; Nem todos são do mesmo gênero literário: alguns são
história, outros são profecia, outros são lírica, outros são carta; ocasionalmente
encontramos repetições de temas, às vezes notamos tensões ou incoerências, até
mesmo contradições entre um e outro escrito sobre este ou aquele aspecto
(devido precisamente ao fato de serem obras independentes). Por razões
práticas, com o tempo, foram copiados os grandes rolos em "folhas"
menores (papiros ou pergaminhos), eventualmente de ambos os lados, que podiam
juntar-se, formando assim uma espécie de livro. Desde relativamente muito cedo,
os cristãos optaram pelos códices, quer dizer, pela escrita em folhas
soltas escritas em ambos os lados, que permitiam um formato prático e pouco
volumoso, sobretudo para o transporte. Isso tornava possível incluir vários
escritos em pouco espaço ou em volumes sob uma só encadernação.
A Bíblia é,
então, uma coleção (ou biblioteca) de escritos. Para o crente, a Bíblia não é
somente uma coleção de escritos, mas é, além disso, a palavra de Deus. As
diferentes maneiras de entender a Bíblia dependem diretamente da maneira como
se entende sua composição e sua condição de palavra de Deus. Tomando a sério
seu caráter literário, reconhecemos que Deus não ditou a Bíblia, mas que ela foi
composta por pessoas com uma cultura, mentalidade, interesse, educação, e que
viviam em uma situação determinada, que estavam em estreita comunhão com Deus.
Vale dizer, do ponto de vista de sua natureza, para o crente, a Bíblia tem
"algo" a ver com Deus, que está em sua origem, e isso nós
qualificamos com a expressão "palavra de Deus", tomada dos profetas.
E se admitirmos a plena participação humana, acrescentaremos a qualificação "em palavras de homens".
Afirmar a
origem divina da Bíblia em forma estrita e absoluta, como se tivesse caído do
céu ou como se Deus mesmo a tivesse escrito, utilizando certas pessoas como instrumentos seus, e assim
negar a dimensão humana, é um indício da incompreensão da natureza da Bíblia. Por
outra parte, reconhecer e afirmar a humanidade dos escritos bíblicos não é
negar seu caráter divino, mas antes situá-los cabalmente dentro das coordenadas
de onde surgiram: a história dos homens. Finalmente, do ponto de vista de seu
conteúdo, a Bíblia é um conjunto de escritos que são o produto e o testemunho
da vida de um povo (Israel/AT) e de uma comunidade (cristianismo/NT) em diálogo
com Deus. São testemunhos de fé dessas pessoas, fé vivida em um mundo real.
Sintetizando o
que foi exposto, podemos dizer que a Bíblia:
É um conjunto de
escritos (note-se: "escritos", não "livros", pois a Bíblia
inclui cartas, por exemplo), que de alguma maneira tem sua origem em Deus: são "palavra de Deus", e
cujo conteúdo é constituído por múltiplos testemunhos de fé vivida por diversas
pessoas e comunidades em diferentes tempos e diante de distintas
circunstâncias.
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